quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Natal !

                           
                                      Canto de Natal


                                 O nosso menino
                                 nasceu em Belém.
                                 Nasceu tão-somente
                                 para querer bem.

                                 Nasceu sobre as palhas
                                 o nosso menino.
                                 Mas a mãe sabia
                                 que ele era divino.

                                 Vem para sofrer
                                 a morte na cruz
                                 o nosso menino.
                                 Seu nome é Jesus.

                                 Por nós ele aceita
                                 o humano destino:
                                 Louvemos a glória
                                 de Jesus menino.



                                  (Manuel Bandeira)

               

domingo, 14 de dezembro de 2014

                                     Organiza o Natal



Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Carlos Drummond de Andrade


 "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Somos todos narizes

Crônica - Donald Malschitzky

Qual sua primeira lembrança na vida? Possivelmente não será um cheiro, mas, se acordarmos nosso inconsciente, é bem provável que ele diga como cheirava o lugar do nascimento, o sangue etc.. As lembranças menos remotas, da infância, por exemplo, já nos remetem a cheiros: nosso quarto, a mãe, a comida que ela fazia, pão assado, lavanda, biscoitos. Com um pouco de esforço, povoarão nossa memória o cheiro das pessoas, do trabalho, do suor, dos perfumes usados por outros- lembra de “Perfume de Mulher”- ?
De nossos sentidos, talvez o menos estudado seja o olfato, apesar dos narizes empinados, torcidos, aguçados, nervosos, curiosos.
Pois descobriram que cada ser humano é um imenso nariz! Temos receptores olfativos em todo o corpo e nossa pele está repleta deles! Parece brincadeira, mas não é. Então aquela coisa de “pintou um clima”, “a química foi perfeita” não é bem ligada a clima ou química, mas a odor, mesmo. Perdeu a graça ou explicou melhor?
Mas tem muita coisa boa nisso: quando esses receptores são expostos ao cheiro de Sandalore, um odor sintético de sândalo muito usado na fabricação de perfumes, começa uma enxurrada de sinais moleculares que, ao que parece, induzem à cura de lesões nos sentidos. Hans Hatt, da Universidade de Ruhr Bochum, na Alemanha, descobriu que a pele se recupera 30% mais rápido de abrasões (raspagens) se há Sandalore presente. Isso pode ser uma revolução no tratamento de pele e, mesmo, de traumas. Ele também descobriu receptores olfativos no fígado, coração, pulmões, cérebro e outros órgãos.
Outra cientista, Grace Pavlath, da Universidade Emory, de ATLANTA, descobriu que quando os receptores de músculos esqueléticos são banhados com Lyra – fragrância sintética com perfume de lírio – acontece a regeneração do tecido muscular.
O caminho ainda é longo, dada a complexidade dessa rede de receptores, mas há todo um imenso universo microscópico se abrindo.  
Receptores olfativos encontrados nos testículos formam uma espécie de sistema químico que mostra o caminho aos espermatozoides até o óvulo. Portanto, de alguma forma, somos cheiro antes de nos tornarmos sopro de vida. E somos perfumados sopros, absorvendo jardins, mesmo quando vivendo as misérias do mundo.



Sobre o autor

    Integrante da Confraria do Escritor e da Associação Confraria das Letras, de Joinville e da ACADEMIA de Letras e Artes de São Francisco do Sul.
    Três livros de poesia publicados (Grafite, Cabeça de Vento e Flechas), todos já esgotados, um livro de depoimentos - "Pequenas histórias de São Bento" - publicado.
    Cronista no Jornal Evolução, de São Bento do Sul (SC), no início dos anos 1990, logo após, no Jornal A Notícia, em Joinville. Atualmente é cronista do jornal A Gazeta, de São Bento do Sul, onde escreve às 2as. FEIRAS , e do Jornal Notícias do Dia, de Joinville (SC), onde escreve às 3as. feiras.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Certezas

                       

                          Somos assim: sonhamos o voo, mas
                          tememos a altura. Para voar é
                          preciso ter coragem para enfrentar o
                          terror do vazio. Porque é só no vazio
                          que o voo acontece. O vazio é o espaço
                          da liberdade, da ausência de certezas.
                          Mas é  isso o que tememos: o não ter
                          certezas. Por isso trocamos o voo por
                          gaiolas. As gaiolas são o lugar onde
                          as certezas moram.


                     

                                 Fiódor  Dostoiévsk   in  Os irmãos Karamazov

Feliz Dia do Professor

                                                            


                         

                                                       Imagem RubenAlves_Oficial

                                                                  

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Presença de espírito de um árabe

Latino Coelho



El Hadjaje, governador de uma província de África, saíra um dia com seus grandes oficiais a caçar, e como seguisse tenazmente uma rês, afastou-se dos que o acompanhavam a ponto, que não sabia depois como voltasse.
Quando estava a meditar no que devia fazer viu um árabe velho, em um próximo campo, a mirá-lo muito atento.
– Donde és tu? disse o governador.
– Daquela cabana que vês além.
– Não és dos de Beni-Adjel?
– Tu o disseste: este campo pertence-lhe.
– Ora, conta-me cá bom velho, que se diz por aí dos agentes do governo?
– Diz-se que são homens sem honra, sem fé, e sem vergonha, que roubam, perseguem e oprimem os habitantes.
– E tu formas deles a mesma opinião?
– A mesma exatamente.
– E que me dizes de El Hadjaje?
– Digo que é o pior de todos. Deus o faça tão negro como um carvão, e amaldiçoe o Califa que lhe confiou o mundo.
– Sabes com quem estás falando?
– Em verdade, não sei.
– Pois eu sou El Hadjaje.
– Folgo em conhecer-te, disse o ancião sem perturbar-se. E tu sabes quem eu sou?
– Não, respondeu o governador maravilhado.
– Chamam-se Zeid-ben-Aamer, e sou o louco de Beni-Adjel. Todos os dias, um pouco antes do sol posto, perco a razão. São quatro horas talvez; não me pode tardar muito o acesso.
O governador não procedeu contra o pobre do homem, e depois de lhe perguntar pelo caminho que devia seguir, deu-lhe algum dinheiro, e abalou.

***

Em: O Panorama: semanário literário e instrutivo, volume IX, primeiro da terceira série, publicado em 5 de setembro de 1846 a 15 de dezembro de 1852. Lisboa: 1852, p. 312.



terça-feira, 15 de julho de 2014

Sobre humildade

                                       
                                             Texto e Imagem via Facebook

domingo, 22 de junho de 2014

Poema infantil

                                              Simpatia

                                                         Afonso Schmidt

                                         Numa tarde longa e mansa,
                                         os dois pela estrada vão:
                                         o cão estima a criança,
                                         e a criança estima o cão.

                                         Que delicada aliança
                                         dos seres da criação:
                                         uma risonha criança,
                                         um robustíssimo cão.

                                         Deus percebeu a lembrança
                                         e sorriu lá na amplidão:
                                         ele gosta da criança,
                                         que trata bem o seu cão.

                                         Por isso, na tarde mansa,
                                         os dois felizes lá vão:
                                         a delicada criança
                                         e o robustíssimo cão.


Em: Poesia brasileira para a înfância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968




Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_Schmidt

domingo, 8 de junho de 2014

Para ouvir suave


Reze e trabalhe


Reze e trabalhe,fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria. Cada um tem a sua hora e a sua vez: você ainda há de ter a sua.


                     João Guimarães Rosa



Imagem:http://www2.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/guimaraesrosa/index.htm

sábado, 3 de maio de 2014

                                                         
                                         Medo

                                                      Tenho medo
                                                      de me ir
                                                      sem sorrisos,
                                                      caminhar a esmo
                                                      por uma vereda
                                                      desconhecida.
                                                      Medo de descompassar
                                                      a alegria,
                                                      transformar em agonia
                                                      a esperança  de todo dia.
                                                      Medo de  me esquecer 
                                                      dos sonhos, que ainda 
                                                      povoam-me   o imaginário
                                                      e me fazem prosseguir
                                                      nos dias e noites.
                                                      Medo de invadir-me 
                                                      o silêncio...
                                                      E a voz , num resguardo
                                                      sussurrante,
                                                      abafar os dizíveis  sentimentos.
                                                      Tenho medo
                                                      de me ir assim
                                                      com desagravos de viver,
                                                      longe  do teu olhar,
                                                      sem a tua proteção,
                                                      sem o conforto  que me dás
                                                      por meio de teus cuidados,
                                                      afáveis,maternos, etéreos
                                                      de tantos anos .

                                                                                          
                                                                                            Aureliano


                            
                 Imagem :   Gustave  Cailebotte


terça-feira, 11 de março de 2014

Virgínia Victorino

                                                                        Êxtase

                                                Não sofras mais, amor, não digas nada!
                                                Vem comigo; eu te levo. A noite é densa
                                                e agora a voz do mar ficou suspensa,
                                                dolorida, vibrante, apaixonada!

                                                Não tarda muito a luz da madrugada...
                                                Vem comigo! Não penses! Não se pensa!
                                                Vem à conquista da aventura imensa,
                                                vê, como eu vou, feliz e deslumbrada!

                                                Um grande sonho me enlouquece e invade!
                                                Vem procurar comigo a Eternidade
                                                esse país tão vago, tão distante...

                                                Vem, que eu busco o palácio da quimera
                                                lá, onde seja eterna a primavera,
                                                e a voz divina das estrelas cante!

                                                                                           (Virgínia Victorino)

                                                        Apaixonadamente

                                               Fui compondo estes versos, absorvida
                                               no ritmo da minh´alma, sempre ansiosa,
                                               para neles ficar, triste ou gloriosa,
                                               uma existência inteira resumida.

                                               Assim os fiz, pela paixão vencida,
                                               — e, porque fui vencida, vitoriosa... —
                                               nesta febre constante de ambiciosa,
                                               mágoa e prazer de toda a minha vida!

                                               Cada verso é uma pedra mais que eu ponho
                                               Na catedral imensa do meu sonho,
                                               ... ria embora do Sonho toda a gente!

                                               A vida humana, seja ou não tranquila,
                                               profunda ou não, — só poderá senti-la
                                               quem a sentir apaixonadamente.

                                                                    (Virgínia Victorino)


Virgínia Victorino nasceu em Lisboa  em 1895. Forma junto com Florbela Espanca  e Maria Helena a trindade da poesia portuguesa contemporânea. Perfeita na forma simples e comunicativa linguagem, despida de quaisquer  artificialismos,a poesia de Virgínia Victorino  vai direto ao espírito e ao coração. Obra: Namorados, Apaixonadamente e Renúncia, livros de sonetos. Comentários de J.G.de Araújo Jorge, no livro Os mais belos sonetos  que o amor inspirou.


 Imagens  - https://www.google.com.br/search?q=Imagens+de+Virgínia+Victorino&biw

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um poema de Cesário Verde

                                                 

                                                                Lúbrica


                                                     Mandaste-me dizer,
                                                     No teu bilhete ardente,
                                                     Que hás-de por mim morrer,
                                                     Morrer muito contente.

                                                     Lançaste no papel
                                                     As mais lascivas frases;
                                                     A carta era um painel
                                                     De cenas de rapazes!

                                                    Ó cálida mulher,
                                                    Teus dedos delicados
                                                    Traçaram do prazer
                                                    Os quadros depravados!

                                                    Contudo, um teu olhar
                                                    É muito mais fogoso,
                                                    Que a febre epistolar
                                                    Do teu bilhete ansioso:
  
                                                    Do teu rostinho oval
                                                    Os olhos tão nefandos
                                                    Traduzem menos mal
                                                    Os vícios execrandos.

                                                    Teus olhos sensuais
                                                    Libidinosa Marta,
                                                    Teus olhos dizem mais
                                                    Que a tua própria carta.

                                                    As grandes comoções
                                                    Tu, neles, sempre espelhas;
                                                    São lúbricas paixões
                                                    As vívidas centelhas...

                                                    Teus olhos imorais,
                                                    Mulher, que me dissecas,
                                                    Teus olhos dizem mais,
                                                    Que muitas bibliotecas!

                                                                                          Cesário Verde


José Joaquim Cesário Verde (Lisboa, 25 de Fevereiro de 1855 — Lumiar, 19 de Julho de 1886) foi um poeta português, sendo considerado um dos precursores da poesia que seria feita em Portugal no século XX. No seu estilo delicado, Cesário empregou técnicas impressionistas, com extrema sensibilidade ao retratar a Cidade e o Campo, que são os seus cenários prediletos. Evitou o lirismo tradicional, expressando-se de uma forma mais natural.                             

                                               
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ces%C3%A1rio_verde

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sumiste



                                                                     Sumiste

                                                  Sumiste tão repentinamente.
                                                  Ausentaste sem alarde.
                                                  Últimas palavras ressoando  no ouvido,
                                                  suaves,  ternas  , cheias de cuidados.
                                                  Mas sumiste tão imperceptivelmente,
                                                  sem adeus, sem  vestígios.
                                                  Até então espero-te, 
                                                  ouvindo-me  o próprio pedido
                                                  para que voltes rapidamente.
                                                  Em vão as palavras alçam voo,
                                                  não te  encontram,
                                                  retornam exaustas, sem respostas.
                                                  E eu,  em silêncio  espero
                                                  ao menos um lampejo teu
                                                  que me dê esperança
                                                  de tua volta.
                                                  Por onde andas,
                                                  Meu  AMOR ?

                                                                                     Aureliano

                                                 
                                                                                     (Imagem  David Hettinger)



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sobre Verso e Prosa


                                                   POESIA E PROSA

                                                                    JOSÉ PAULO PAES

Pode-se escrever em prosa ou em verso.
Quando se escreve em prosa, a gente enche a linha do caderno até o fim,
antes de passar para a outra linha.
E assim por diante até o fim da página.
Em poesia não: a gente muda de linha antes do fim, deixando um espaço em branco antes de ir para a linha seguinte.
Essas linhas incompletas se chamam de versos.
Acho que o espaço em branco é para o leitor poder ficar pensando.
Pensando bem no que o poeta acabou de dizer.
Algumas vezes, lendo um verso, a gente tem de voltar aos versos de trás
para entender melhor o que ele quer dizer.
Principalmente quando há uma rima, isto é, uma palavra com o mesmo som
de outra lida há pouco.
Então a gente vai procurá-la para ver se é isso mesmo.
A prosa é como trem, vai sempre em frente.
A poesia é como o pêndulo dos relógios de parede de antigamente,
que ficava balançando de um lado para outro.
Embora balançasse sempre no mesmo lugar,
o pêndulo não marcava sempre a mesma hora.
Avançava de minuto a minuto,
registrando a passagem das horas: 1, 2, 3, até 12.
Também a poesia vai marcando,
na passagem da vida, cada minuto importante dela.
De tanto ir e vir de um verso a outro,
de uma rima a outra,
a gente acaba decorando um poema e guardando-o na memória.
E quando vê acontecer alguma coisa parecida
com um poema que já leu, a gente logo se recorda dele.
Geralmente, a prosa entra por um ouvido e sai pelo outro.
A poesia, não: entra pelo ouvido e fica no coração.


PAES, José Paulo. Vejam como eu sei escrever. São Paulo: Ática, 2008. P. 16-19.