sábado, 8 de fevereiro de 2020
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
Amo a vida
Amo a vida.
Fascina-me o mistério de
existir.
Quero viver a magia
de cada instante,
embriagar-me de alegria.
Que importa a nuvem no
horizonte,
chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu
dia.
Helena Kolody, in Paisagem Interior
Imagem : Kinuko Craft
Ensaios Poéticos I
Ensaios Poéticos I
Era singela,
Qualidade hoje tão em falta.
Sua vida num resumo
Dava uma folha.
Mas seu amor era sem fim
A abraçar o próximo.
Então santa ficou
Sem sequer desejar para si
Alguma realização.
**********
Na noite
Anjos a visitaram
Tomaram-lhe o corpo.
Alçando voo,
Cruzaram as siderações.
Ao acordar
Viu-se em deslumbrante lugar.
Aureliano
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
Poema de E.E. Cummings
Chamar a Si Todo o Céu com um
Sorriso
que o meu coração esteja sempre
aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor
do que conhecer
e se os homens não as ouvem
estão velhos
que o meu pensamento caminhe
pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu
me engane
pois sempre que os homens têm
razão não são jovens
e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que
verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco
que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um
sorriso
E. E. Cummings, in
“livrodepoemas”
Tradução de Cecília Rego
Pinheiro
terça-feira, 8 de outubro de 2019
O poeta Ivan Junqueira
Poemas de
Ivan Junqueira
Tristeza
Esta noite eu durmo
de tristeza.
(O sono que eu tinha
morreu ontem
queimado pelo fogo
de meu bem.)
O que há em mim é só
tristeza,
uma tristeza úmida,
que se infiltra
pelas paredes de meu
corpo
e depois fica
pingando devagar
como lágrima de olho
escondido.
(Ali, no canto apagado da sala,
meu sorriso é apenas
um brinquedo
que a mãozinha da
criança quebrou.)
E o resto é mesmo tristeza.
(de Os Mortos)
Elegia Íntima
Minha mãe chorando
no fundo da noite
rachou o silêncio do
quarto adormecido.
Meu pai olhava o
escuro e não dizia nada,
Um relógio preto
gotejava barulho.
Lá fora o vento
lambia as espáduas do céu.
Minha mãe chorando
no fundo da noite
Apunhalou o sono de
Deus.
(idem)
Madrigal
Azul e pontual,
o céu acordou:
cada aurora
em seu horizonte.
Mas a pergunta,
Como um gládio
em riste, cravou
seu aço no vazio
— e lá, imóvel,
ficou
esperando a resposta
que não raiou.
(idem)
Hoje
A sensação oca de que tudo acabou
o pânico impresso na
face dos nervos
o solitário inverno
da carne
a lágrima, a doce
lágrima impossível...
e a chuva soluçando
devagar
sobre o esqueleto
tortuoso das árvores
(idem)
Haicai
Na gaiola jaz
o pássaro
sem espaço
(de Opus
Descontínuo)
O Poema
Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?
Que será, se há lama
no que escreve a
pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um
drama?
Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que algema?
(de A Sagração dos
Ossos)
Talvez o vento saiba
Talvez o vento saiba
dos meus passos,
das sendas que os
meus pés já não abordam,
das ondas cujas
cristas não transbordam
senão o sal que
escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi
não mais acordam
à cálida pressão dos
meus abraços,
e o que a infância
teceu entre sargaços
as agulhas do tempo
já não bordam.
Só vejo sobre a
areia vagos traços
de tudo o que meus
olhos mal recordam
e os dentes, por
inúteis, não concordam
sequer em mastigar
como bagaços.
Talvez se lembre o
vento desses laços
que a dura mão de
Deus fez em pedaços.
Ivan Junqueira já foi chamado, com inteira justiça, de “o poeta do pensamento”. Carioca, nascido em 3 de novembro de 1934, Ivan Nóbrega Junqueira é também um premiado ensaísta (O encantador de serpentes, 1987; O signo e a sibila, 1993; O Fio de Dédalo, 1998), crítico literário de incomum dignidade humanística e tradutor de T.S.Eliot, Marguerite Yourcenar, Marcel Proust, Dylan Thomas e Charles Baudelaire, de quem verteu para nosso idioma o inigualável poema As Flores do Mal.
Sua extensa obra poética (de Os Mortos, 1964, a Poemas Reunidos, 1999), preocupada com questões políticas e metafísicas, abriu-lhe as portas da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a Cadeira nº 37, patroneada pelo poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, e de que foi Presidente no biênio 2003-05.
JUNQUEIRA, Ivan. Essa música 2009-2013. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. 95 p. 14x21? cm “Orelha” do livro por Marco Lucchesi. ISBN 978-85-325-2924-4 “ Ivan Junqueira “ Ex. bibl. Antonio Miranda
sábado, 29 de junho de 2019
Um poema de Brecht
A exceção e a regra
Nós vos pedimos com
insistência:
Nunca digam – Isso é
natural.
Diante dos
acontecimentos de cada dia.
Numa época em que
reina a confusão,
Em que corre o
sangue,
Em que se ordena a
desordem,
Em que o arbitrário
tem força de lei,
Em que a humanidade
se desumaniza…
Não digam nunca:
Isso é natural.
A fim de que nada
passe por ser imutável.
Sob o familiar,
descubram o insólito.
Sob o cotidiano,
desvelem o inexplicável.
Que tudo que seja
dito ser habitual
Cause inquietação.
Na regra é preciso
descobrir o abuso.
E sempre que o abuso
for encontrado,
É preciso encontrar
o remédio.
Vocês, aprendam a
ver, em lugar de olhar bobamente.
É preciso agir em
vez de discutir.
Aí está o que uma
vez conseguiu dominar o mundo.
Os povos acabaram
vencendo.
Mas não cantem
vitória antes do tempo.
Ainda está fecundo o
ventre de onde surgiu a coisa imunda.
BERTOLD BRECHT
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